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23 nov A chave da vitória de Trump

Acompanhei de perto a reta final da eleição presidencial nos Estados Unidos. Uma disputa que, pelo que se via na mídia, parecia estar decida a favor de Hillary Clinton. Parecia. A compreensão da vitória de Donald Trump, contra tudo e – quase – todos, contrariando as pesquisas e comentaristas políticos, vale para eleições futuras.

O fundamental da estratégia de Trump foi o ponto central de campanhas vitoriosas: a emoção correta. Em países onde o voto não é obrigatório, como nos EUA, o eleitor precisa ter “motivo” para ir votar. Na maioria é difícil conseguir que, pelo menos, metade do eleitorado compareça. Os eleitores mais motivados são os de quem desperta mais emoção favorável.

A pauta da campanha de Trump não foi a política, mas os valores. Com uma mensagem clara, que através do slogan “Make America great again”, tocou o coração de uma parcela que o reconheceu como quem pretendia restaurar não só a economia, mas o sentido de ser americano.

Em 2008, Obama soube compreender o eleitorado e dar-lhe esperança com a simplicidade característica da boa comunicação política traduzida no slogan “sim, nós podemos”. Em 2016, não foi diferente. A narrativa se deu sobre problemas concretos e soluções fáceis de serem visualizadas, para o bem ou para o mal. A insegurança econômica, a ameaça terrorista, a percepção de perda de valores e a decepção com o sistema político, canalizando o medo com a delimitação a quem temer.

A personalidade excêntrica, amplamente atacada pela campanha de Hillary, foi minimizada pelo eleitor que a via como virtude. Mas isto não se deu por acaso. Trump identificou o eleitor médio americano, conectou-se a ele e ofereceu o tom combativo e enérgico que lhe é peculiar. Pessoas sem diploma universitário, residentes em pequenas cidades e áreas rurais, de renda média baixa e que rejeitam o Governo Obama. Para esses, os ataques à elite, aos imigrantes e aos países que lhe retiram o emprego, além do protecionismo comercial e o discurso nacionalista, soam como música aos ouvidos. Voltar à era Clinton para eles não significava mudança nem progresso.

Por outro lado, a campanha de Hillary não conseguiu reverter a percepção de fria e distante. Foi entediante vê-la falar por 4 minutos num showmício que teve a apresentação dos astros Beyonce e Jay-Z há menos de uma semana para o dia final da eleição. Outro erro foi ter dado mais ênfase ao adversário do que às suas convicções e projetos. Além disso, Hillary parecia pouco confiável para 70% dos norte-americanos devido aos escândalos que envolveram os Clinton, tornando-se assim um estereótipo previsível e indesejado.

Enquanto isso a ofensiva de Trump contra a imprensa, que poderia destruir qualquer outro, contribuiu para consolidar a imagem de herói. Em vez de adaptar-se, Trump moldou a vida política ao seu estilo, com o cuidado de adequar sua linguagem para ser compreendido pelos norte-americanos. Apresentou-se como vítima de um complô, mexeu com o orgulho nacional e prometeu recuperar os prejuízos. Soube resgatar sentimentos adormecidos que lhe permitiram ocupar a representação dos setores da classe média abandonados pelos democratas. Ao contrário de Hillary, Trump se comprometeu emocionalmente com o eleitor, que defendeu silenciosamente sua decisão e lhe deu a vitória.

Leandro Grôppo
Consultor de Marketing Político
leandro@strattegy.com.br

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